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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A experiência analítica e sua direção

Na configuração do campo analítico, a transferência é o instrumento mais precioso da técnica que o psicanalista utiliza.

A existência etérea da transferência torna seu manejo particular. É essa qualidade impalpável e não generalizável que singulariza o trabalho do psicanalista: o define e o diferencia.

Define, porque situa e circunscreve o campo da análise, e particulariza a intervenção como irrepetível; diferencia, porque conota a abordagem com uma qualidade precisa, diferente dos demais profissionais.

Como uma bússola, a transferência não revela tudo, mas aponta o essencial para que certa direção seja perseguida no percurso da análise.

O temo transferência, numa acepção ampla, comporta a idéia de transporte, deslocamento, substituição. Em psicanálise, inferimos a existência de uma lógica inclusiva na própria afirmação que define o que é uma análise: não existe experiência analítica distinta da experiência transferencial.

Freud e seus seguidores fizeram uso do termo para nomear o processo no qual os desejos inconscientes referentes a objetos passam a se repetir no espaço analítico, sendo o analista colocado na posição desses objetos.

Lacan reformulou essa noção clássica e posicionou a transferência na relação entre o eu e o Outro. A transferência é aquilo que estrutura a relação ao Outro que é o analista. Todos os pensamentos que orbitam essa relação se revestem de um signo particular.

Freud afirma que o manejo da transferência é a dificuldade mais séria que o psicanalista enfrenta. Ele coloca em questão a autenticidade do amor na transferência. A exigência de amor aparece no trabalho analítico como expressão da resistência.

Propõe, como princípio, que esse anseio do paciente sirva para conduzi-lo a trabalhar analiticamente e a realizar mudanças, colocando o amor transferencial a serviço do trabalho analítico.

O amor atualiza antigas características, reedita protótipos infantis. O amor transferencial não foge a esse padrão. Ao contrário, exibe com intensidade ainda maior esse tipo de dependência.

Lacan amplia o debate: o desejo do analista é aquilo que revela a verdade do amor transferencial.
A transferência é tecida com os mesmos fios que tecem o amor. O amor transferencial é um artifício; um objeto que reflete outro.

A transferência é compreendida por Lacan como um engano. O analista ocupa o lugar do sujeito suposto saber, ao qual se atribui, como efeito da transferência, saber absoluto.

O que está em jogo aqui é a relação entre saber e amor.

O analisando transfere ao analista o seu saber. Contudo, a operação de transferência só se realiza no âmbito de uma demanda de amor.

Para Lacan, a transferência encena a própria realidade inconsciente.

Ele radicaliza essa idéia, ao dizer que a presença do analista é uma manifestação do inconsciente.

Seguindo essa formulação, somos convidados a ter acesso ao movimento do sujeito – o abrir e fechar, o contrair e expandir – que constitui a pulsação temporal desse movimento.

A presença do analista sustenta o conflito. E sua intervenção promove a manutenção do drama inicial – sua repetição.

A transferência permite o acesso à indeterminação do sujeito, atingindo o ponto primário do inconsciente.

Freud nos indica: transferência é resistência. Se nos fixarmos diante desse paradoxo - via de acesso e também ponto onde se interrompe a comunicação - apreendemos a natureza ambígua da função da transferência.

O analista acredita na força do conflito – onde há recalque, há algo que impulsiona – essa mola, quanto tocada, repete o ir e vir, o movimento essencial do conflito que se atualiza na clínica.

Ao acompanhar a trilha aberta no território beligerante, nos deparamos com o movimento pulsional, motor da atividade psíquica, que nomeamos como pulsão.

A pulsão carrega consigo um enigma. Ela marca a falta e a fragilidade do humano.

Marca a busca errante do homem e nos revela sua natureza vulnerável.

A pulsão contorna o vazio e em torno dele borda sua linha. Daí a variação de seu objeto: qualquer objeto serve; nenhum objeto serve.

Na análise, a transferência funciona como a antena que permite à pulsão emitir seus sinais, expressar sua potência. Posicionados no lugar que a transferência nos confere, podemos acompanhar a mobilidade constante da pulsão, sua flagrante inquietude.

Esta Postagem divulga a introdução de um trabalho, no qual foram apresentados e analisados quatro fragmentos clínicos, que não foram abordados aqui por motivos óbvios referentes ao sigilo clínico.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

O transgressor e sua busca de objeto

O principal objetivo deste estudo, realizado nos anos 90, é contribuir para ampliar o horizonte de reflexão de profissionais que trabalham em instituições voltadas para o atendimento e custódia de jovens comprometidos com a justiça.
O grupo de adolescentes que compôs o campo de investigação nos foi encaminhado pelo setor pedagógico de três escolas que respondem pela custódia judicial de jovens no Rio de Janeiro.
Estes adolescentes correspondem a um percentual pequeno, quando confrontado com a população total que passa pela justiça, mas remetem-nos a histórias de retorno constante ao circuito judicial. Conhecemos rapazes ainda muito novos, na faixa de quatorze a dezesseis anos, atores de uma vida que envolvia grandes perigos. Como nos confirma a própria fala de um deles:
“Às vezes eu passava de carro, com a AR-15 e tirava a maior onda com a cara deles. Saltava do carro e dava uma rajada. O engarrafamento desaparecia. Abria espaço para eu passar. A AR-15 é sinal de poder, não é pra quem quer, é pra quem pode”.
O transgressor parecia se esmerar para estreitar seus caminhos de modo a restar apenas um tênue fio entre a vida e a morte. O uso de armas de fogo pesadas, às vezes duas ou mais, fazia-nos refletir sobre a fragilidade do eu que presidia essa ação de defesa/ataque. A suspensão da Lei garantia a licenciosidade para o agir narcísico, irrefletido, incontido.
”Não gosto muito de ficar na boca sem fazer nada, dá maresia. Não tem nada pra fazer. Eu prefiro assaltar, agir, fazer assaltos em firmas e mansões”.
(...) é nessa provocação incessante da lei que ele se assegura – até mesmo se ressegura – de que a lei realmente existe, que pode encontrá-la e procurar nela experimentar a economia de seu gozo. É neste sentido que a transgressão é o correlato inevitável do desafio (...) (Joel Dor, 1991:129).
Como costuma agir o transgressor protagonista de nossas entrevistas? Que palavras os adolescentes diziam se utilizar durante as ações praticadas?
“Já perdeu. Pode ficando quieto e passar tudo senão morre”.
Trata-se aqui do estabelecimento de um jogo em que forças são medidas, de um desafio lançado ao acaso. Mas ao mesmo tempo configura duelo onde apenas um havia se preparado para o momento de ataque.
A regra desse jogo é desarmar alguém que já se supunha desarmado. Claro que existe sempre a possibilidade, o risco de tudo perder. Mas é exatamente este fator que nivela a ação no patamar dos rituais de sacrifício.
As únicas coisas temíveis são a polícia e a morte. Possibilidades que se vislumbram na linha do provável, do acaso, do real.
O transgressor acessa o objeto pela violação. O preço do objeto não é calculado conforme as leis do mercado ou da troca. Este é determinado pelas condições em jogo na sua aquisição.
O que o transgressor busca através de sua ação não é apenas o cometimento de uma infração. A sua conduta simboliza uma falta, trata-se de uma ação simbólica. Porque é a falta do objeto que conta.
Afinal, o que pode acontecer no momento da ação?
“Matar ou morrer. As chances são iguais.”
“Tenho medo de ser pego pela polícia. Ela não quer nem saber, se pega a gente de madrugada mata mesmo.”
Lances de um jogo que se passa na indefinível fronteira do real e do virtual: tudo ou nada pode acontecer. No interior desse extremado realismo reside a ficção de se postar diante do limite último, para dribá-lo no mais absoluto dos desafios. A palavra-chave é quieto, ou seja, não se mova.
Palavra de comando sobre outro feito escravo que em princípio não se deseja morto, mas testemunha muda do desafio que simboliza a metrificação do falo. Por isto diz-se de ação, que ela adquire o estatuto de simbólica. Simboliza alguma coisa ausente-presente naquele instante que a dramatização encobre.
Tal como acontece com o fetichista, a situação se torna cenário-tela do momento preciso em que se pode supor que a mãe possua o falo. O efeito véu que a ação encerra, congela, por segundos, o instante real. Na ação rápida – mágica – a mãe é ficcionada total.
Para além da ação existe a suposição de deter o objeto absoluto que encobre momentaneamente a falta, a angústia que acompanha o horror da castração. O objeto desejado em relação ao outro não é tanto o que ele porta enquanto bens, mas muito mais o seu olhar surpreso-apavorado ante o horror da castração.
Olhar do outro que espelha o olhar de horror do próprio transgressor ante a castração. O gozo desse momento oportuno lança o outro num lugar impotente, desarmado.
A submissão vexatória do outro é apenas uma situação contingente: o que é desejado é o olhar desse outro que testemunha o gozo perfeito. Não é com isso que sonha o transgressor, o crime perfeito, aquele que não deixa vestígios, e, assim ideal, é capaz de arremessar seu autor no auge da glória?

Extraído do artigo O jovem transgressor: suas implicações na ação, de Maruza Bastos, in: Cadernos de Metodologia. Rio de Janeiro. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Centro de Teologia e Ciências Humanas. Departamento de Psicologia, v.4/5, 1997/98.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Os Porões da Pólis

Nos anos noventa realizei um estudo sobre a grave situação das instituições responsáveis pela custódia de adolescentes infratores no Rio de Janeiro. São elas: o Instituto Padre Severino, a Escola João Luiz Alves e o Educandário Santos Dumont, todas localizadas na Ilha do Governador.
Para situar os leitores interessados, esta área de atuação estava nessa época sob a responsabilidade do Ministério da Justiça, compunha o organograma da Secretaria dos Direitos da Cidadania, na qual foi criado o Departamento da Criança e do Adolescente (Dec. 1796, de 24.01.96), que respondia pela implantação da política de atendimento de direitos da criança e do adolescente.
Com a promulgação em 1990 do Estatuto da Criança e do Adolescente, o atendimento oferecido por essas escolas deveria obrigatoriamente sofrer reformulações. Esta lei se inspira na Convenção internacional sobre os direitos da criança, que entrou em vigor também em 1990 e em diretrizes indicadas pela Constituição Federal de 1988.
O Estatuto da Criança e do Adolescente contempla, no plano ideal, os princípios contidos em orientações internacionais, que apontam para a integração global das nações, introduzindo a política internacional de mútua ajuda, principal conquista da humanidade após a experiência destrutiva da Grande Guerra.
Conforme prevê o Estatuto, o papel das equipes técnicas que trabalham nessas escolas consiste em proporcionar subsídios à decisão judicial, sugerindo medidas a serem adotadas mediante estudo de caso. Cabe também à equipe acompanhar os casos e desenvolver todos os procedimentos no sentido de elaborar uma programação que atenda às necessidades básicas do adolescente e da família.
A história sobre o percurso que teve o atendimento à juventude no Brasil apresenta um movimento ascendente e linear em direção à cobrança de responsabilidade por parte da sociedade em relação às atitudes do jovem (as ações consideradas anti-sociais – década de 50, posteriormente passam a caracterizar a situação irregular – década de 70, atualmente classificadas como infracionais – década de 90). Discussão que coloca em evidência a preocupação crescente com a responsabilidade penal e as conseqüentes modificações no conceito de imputabilidade.
Durante a República Velha foram criadas instituições e instrumentos legais nos quais sobressaia a dicotomia entre teoria e prática: aparecem instituições sem condições de cumprirem as finalidades para as quais eram destinadas; as administrações da Escola Quinze de Novembro foram marcadas por freqüentes crises originadas nas contradições e conflitos. Essas crises oscilavam entre dois pólos: ou se dava ênfase ao aspecto educacional e preventivo, ou se tratava o problema como um caso de polícia que necessitava de enérgicas medidas de segurança. As queixas se multiplicavam: a constante falta de verba, a falta de recursos humanos e materiais, a superlotação dos internados...
Esses problemas não são exatamente os mesmos que enfrentamos na atualidade? O que avançou nessa história? Tranquilamente se pode responder: os instrumentos legais, e só. E isto resultou em mudanças efetivas? Categoricamente se pode responder: Não. Mas por que não se consegue transformar em realidade as idealizações contidas nos documentos oficiais?
As equipes restringem o contato com os adolescentes à tarefa de organizar o estudo de caso exigido pelos juízes. Assim, realizam uma avaliação do aluno fria e sem conteúdo, na qual o adolescente nada de substancial sobre si mesmo pretende passar; e esta situação se reproduz com a família. A dinâmica das equipes técnicas reflete o todo do funcionamento dessas escolas.
A provisoriedade da internação conforma uma situação de não realização por parte de todos: os funcionários não se estimulam em investir num adolescente que logo irá embora, e ele não se percebe comprometido com nada ali, até porque para isto seria necessário acreditar no sistema. Além do mais seu objetivo é sair dali, ainda que saiba da absoluta falta de oportunidades e do sinistro que domina a vida na rua.
Há uma constante oscilação no objeto da atenção: ora o objeto é o relatório que deve ser entregue em prazo determinado e exíguo; ora o objeto é a árdua tarefa de controlar os conflitos, conter os desafetos e não permitir a evasão; ora o objeto é a confecção e sustentação de um projeto educativo.
De fato a pressão dos prazos judiciais acaba inviabilizando um trabalho voltado para atender às exigências sócio-educativas. Há a ausência de um projeto educacional em torno do qual os diferentes setores possam atuar. E é impossível para essas equipes darem conta de tarefas tão conflitantes entre si, além de exaustivas.
Uma sugestão seria formar um núcleo de técnicos voltados especificamente para fornecer a análise que subsidia a decisão judicial, enquanto um outro núcleo se envolveria em projetos claramente definidos, a serem executados e avaliados dentro de prazos definidos. Esta seria uma tentativa de quebrar a prática jurisdicista e conservadora que acaba por contaminar toda a práxis nessas escolas.
As múltiplas insatisfações dos funcionários e a alienação do Estado para cumprir condignamente suas responsabilidades executivas, configuram um quadro de tensão e impotência indissolúveis, que ameaça constantemente a saúde das pessoas que trabalham nessas instituições insalubres.
Mas a maior necessidade desse sistema é adotar uma mira filosófica / teórica acerca do sujeito com que se trabalha nessas instituições. O que significa se implicar na discussão sobre nossa história social particular – brasileira – no processo civilizador.
Trata-se de uma sociedade jovem, que traz na sua bagagem a trágica experiência da colonização selvagem, do trabalho escravo, da conformação de uma elite aristocrática, ruralista, que não consegue impedir o desenvolvimento de um grupo de elite que clama pelos ideais liberais. No seio dos conflitos entre os interesses diferenciados desses grupos, crescemos, ainda que frágeis, em nossa busca de autonomia; avançamos entre tropeços e retrocessos nosso projeto de nação liberal. Entretanto, nos impasses para superar os efeitos paradoxais do passado, acumulamos uma gigantesca dívida social, centrada na forma como se consolidou (?) nosso sistema de direitos sociais, expressa na tríade: habitação, educação, saúde. Essa dívida é proporcional à concentração de capital e de propriedade por pequeno segmento da sociedade.
O Estatuto da Criança e do Adolescente é um instrumento resultante de uma reflexão coletiva de caráter internacional sobre a preocupação da civilização com a infância. Nesta perspectiva, temos uma estratégia filosófica e pragmática: a sócio-educativa, que nos indica o caminho da proteção integral.
Daí que o aspecto social presente na díade – sócio-educativa, exige a montagem de um sistema assistencial, da construção de um conjunto de instituições de atendimento com caráter preventivo: suporte social essencial para viabilizar a retaguarda da intervenção educativa, judicial e policial.
O aspecto educativo presente nessa díade, não pode ser reduzido a uma preocupação coercitiva das atividades do indivíduo. Há que permanecer um tanto distanciado do papel restrito que cabe à justiça e à polícia. Estes, compõem um aparato de intervenção que, limitada pela sua inerência qualitativa, deve permanecer na redução do limite coercitivo que se exerce sobre a ação destrutiva, com precisão técnica e humana, mas preservando sempre a restrição de seu enquadre.
No caso da instituição educativa para o jovem infrator, há que se garantir a especificidade – especial – de sua intervenção: entramos aqui na discussão sobre um projeto de atendimento no qual as necessidades individuais devem ser observadas com as lentes precisas de microscópio. Esse tipo de abordagem exige que um aparato de promoção social caminhe pari passu apoiando o jovem e sua família. Mas para que este projeto possa se realizar é preciso acabar primeiro com as macro-instituições de internação.

Extraído do artigo Os Porões da Pólis, de Maruza Bastos; in: A pesquisa nas ciências do sujeito. Rio de Janeiro: Revinter, 1998.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

A encenação religiosa

Durante os anos 1993-94 estive no Instituto Padre Severino convivendo, presenciando o cotidiano, entrevistando adolescentes, funcionários e voluntários de diferentes orientações religiosas. Tive contato com a igreja batista, a igreja católica carismática e o grupo família (meninos de Deus). Essa pluralidade tinha haver com o estilo de liderança da diretora, que simpatizava com o apoio religioso, pois era mais uma atividade com a qual contava para preencher as horas do dia. Dados sobre religião foram obtidos através de um questionário respondido pelos adolescentes. O confronto entre os resultados sobre a religião dos adolescentes e a religião das famílias apresentou significativa distorção: a maior parcela dos adolescentes não tinha religião, enquanto as famílias eram evangélicas.
Nas entrevistas com os jovens, evidenciava-se a luta que neles se processava entre as forças do bem e do mal. Dualidade na qual o demônio era a figura responsável pela transgressão. Intrínseca a essa dualidade, notava-se uma duplicidade no modelo ético que interessa aqui destacar. Duas questões foram levantadas. Primeiro, o discurso evangélico apresenta polaridade entre Deus e o demônio, e as ações são catalogadas conforme essa dicotomia. Com que palavras valorativas os pais preenchiam a vida doméstica? Segundo, nessas famílias havia uma ambivalência, muitas buscaram na religião um forma de reparação de erros passados: pais alcoólatras, violentos, alguns com comprometimentos anteriores com a justiça. Os filhos colocavam em dúvida a força moral dos pais. “Ele já aprontou bastante agora quer dar uma de bonzinho...”. Até que ponto os pais não se sentiam castigados?

A hipótese a sustentar é que o discurso moralista na família, apoiado na dicotomia entre o bem e o mal, serve para produzir no jovem uma ideologia valorativa das ações na qual ele se inscreve como o próprio mal – bad boy. Essa moral não é eficaz a ponto de estancar sua sede de agir como um herói. Na família ele se coloca como um exemplo daquilo que os irmãos não devem ser. Mas, orgulhoso de sua coragem passa aos outros a semente de sua ambivalência. Na rua, “comigo ninguém pode”, é o seu ideário. Em casa, exige respeito dos irmãos às regras impostas pela família; forma de confirmar seu poder. A sensação mágica de ser poderoso como ganho gratificante de ser-tabu, não interdita a vida perigosa que “escolheu” para si. Na rua, ele se faz narciso a adorar sua vida-aventura. Vive a ilusão de ser um mito respeitado-temido. O mito é uma forma de narrativa na qual a sociedade imprime suas inquietações, reflete seus paradoxos, indica seus caminhos.

Como lida o jovem transgressor com os tabus? Há um universo mítico que o jovem cultua quando em liberdade – bicho solto. Acredita que tem o corpo fechado, que conta com a proteção do povo da rua. Muitos estabelecem pacto com o Zé Pelintra, a entidade mais citada nas entrevistas.

Zé Pelintra é representado como um típico malandro da Lapa, nos idos anos trinta. Usa terno branco, gravata vermelha, chapéu com fita vermelha e sapatos bicolor. É farrista, cachaceiro, mulherengo, fala macio e anda gingado. Mestre no jogo de cartas, na capoeira e no samba, é astucioso e enganador.

Ter a proteção do Zé Pelintra significa garantir-se no acordo para se livrar de perigos implicados na transgressão. Permite incorporar mais energia, uma vez que a transgressão implica em acréscimo de carga, que envolve mais fascínio e poder. Como num ritual de transformação, o jovem imbuído dessa sobre-força, transmuta-se ele mesmo num tabu ainda mais poderoso. O tabu resguarda o poder emprestando-lhe sua força sagrada. Força-potência que emana do processo de transformação. Mas o poder, sagrado ou político, está envolto em fascínio, que visa amedrontar para afastar, obter vantagens e submeter os seres comuns que se situam fora do seu circuito. O poder, não importa sua natureza, impõe suas regras, suas leis; é ele que fornece o sentido. Dizendo o que é ou não permitido, produz limites. Assim organiza os valores e estrutura os mecanismos de funcionamento da sociedade.

Mas que é feito desse herói – espécime exemplar – quando aprisionado nas malhas do poder formal? Há a necessidade de resgatar o discurso racional, e identificar-se com a ideologia da ressocialização, a qual preconiza o perdão para o indivíduo recuperado, para aquele que não mais repetirá a ação danosa. Essa linguagem do cooptado, tem ressonâncias na explicação que busca a causa da ação individual na idéia de que uma grande parcela da população está excluída da garantia dos direitos sociais. Esta explicação, como uma armadilha, aproxima a pobreza do crime. Justifica que se rouba porque se é pobre; donde concluir-se que as camadas pobres são perigosas. Conforme essa ideologia basta ter seguridade social para ser um cidadão acima de suspeitas.

Na instituição há o expurgo de todos os males; é o momento de cuidar da saúde e da alma, de se entregar a Deus. Como se dá o rito dessa passagem? O adolescente vai se mascarando no mesmo tempo que vai melhorando. Inscreve-se na ordem lingüística da instituição. Tal como acontece com o louco no hospital psiquiátrico. Existe uma dissimetria entre o transgressor imerso em sua indeterminação e o saber jurídico. A tarefa do jurista é constituir uma nominação. Dar um nome previsto no código, conduz a classificação dos falantes num lugar determinado pelo saber. Forma de reclassificar a alteridade que reside na transgressão. Embora o discurso e a prática religiosa não fossem essenciais para produzir a integração dos adolescentes, no Instituto Padre Severino, eram úteis aos objetivos da administração, pois eram aliados dessa ideologia do bem a reprimir a palavra perturbadora. Oferecia seus préstimos, seus rituais exorcistas para melhor fixar os jovens na nominação oficial da ordem instituída.
Síntese do artigo A encenação religiosa, de Maruza Bastos, publicado in: Em busca da cidadania. Revista do Centro de Estudos e Pesquisas da Primeira Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, 1999.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Aprisionamento

Ao atravessar os portões da penitenciária de mulheres (1984), a primeira impressão com a qual nos deparamos entra em choque com a imagem previamente formada acerca do mundo particular que se imagina existir atrás daqueles muros. A fantasia criada sobre a vida na prisão é de que, nesta, o rigor assume a proporção do absoluto, e que os encarcerados seriam pessoas que, pela aparência e pelo olhar, transpareceriam a ferocidade gerada pelo rancor e pelo desgosto de estarem sendo obrigados a conviver num ambiente onde a coerção declarada seria a norma que vasculha as ações de modo a desvendar a intenção disciplinar.
A liberalidade aparente que à primeira vista se observava na prisão de mulheres, na verdade, era fruto de um momento circunstancial, e expressava a vontade de repensar os procedimentos utilizados na custódia, visando adequá-los ao pensamento político que ora predominava: o de humanizar as prisões. Esta liberdade consentida, embora controversa, permitia contradizer o preconceito de que o clima na Talavera Bruce era sombrio e ameaçador.
A permanente ameaça de que a qualquer momento possa ocorrer algum tipo de violência paira no ambiente da prisão. É preciso acostumar-se a conviver com a instabilidade, a insegurança. Porque isto é algo inerente à natureza da penitenciária. O ambiente persecutório produz seres paranóides. E a paranóia que advém dessa realidade inevitável responde pela preservação do indivíduo. A qualidade mórbida da paranóia depende da intensidade de como cada um desenvolve este tipo de sentimento defensivo. Sabe-se porém que a prisão propicia uma potencialização dos estados afetivos, dado o aspecto excessivo que encerra a experiência segregadora.
Um número significativo de presas apresenta histórias de vida similares no essencial: ganhavam a vida na rua como prostitutas, e se envolveram na sua maioria como cúmplices em crimes contra o patrimônio. Pessoas que tinham uma vida nada rotineira, marcada pelo inesperado. Acostumaram-se com a vida noturna e agitada da cidade. Ressentem-se da regularidade que, a partir da reclusão, passam a ter que respeitar. Este impacto, contudo, configura-se um mal menor, posto que a fantasia criada sobre o Talavera Bruce era tão ameaçadora que a vivência do cotidiano desmistifica a malignidade imaginada. O monstro não é tão pavoroso quanto se fazia supor.
Sabemos que a população carcerária compõem-se de pessoas oriundas de comunidades marginais, com exceções, acostumadas com a miséria e a vida instável, vida que desde a infância mostrou-se dura e impiedosa. Ante a difícil realidade a ser enfrentada na luta pela sobrevivência, para algumas a prisão viabiliza certa estabilidade, até então desconhecida.
Os afetos, as sensações, são visivelmente intensificados na penitenciária. Marca que diferencia qualitativamente a experiência humana intramuros da vida na sociedade. A somatização é um processo que as presas manifestam de forma generalizada e constante. Elas apresentam uma predisposição a sentir-se doentes. Somatizam, geram e cronificam doenças que se arrastam como que incuráveis. Essa hipocondria não deixa de ser um modo de expressar uma dor não palpável, difícil de ser referida.
Trecho extraído do livro: Cárcere de Mulheres, de Maruza Bastos. Rio de Janeiro. Diadorim Editora. 1997.