quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Linguística e Psicanálise

Saussure estrutura a fala no domínio da idiossincrasia, ou seja, na maneira como cada pessoa vê, sente e reage. Sem o pretender, dessa forma ele faz a ligação entre linguística e psicanálise que, mais tarde, Lacan irá explorar.

Ao conceber o campo simbólico, Lacan inverte a ordem do signo lingüístico: significado barra significante, para, significante barra significado.

Com esta inversão, Lacan marca a prevalência do significante sobre o significado.

Ancorado no princípio lógico do algoritmo – S/s – Lacan afirma que o inconsciente se estrutura como uma linguagem.

Assim, o sujeito se revela servo de um discurso em que o lugar que ocupa já se encontra inscrito em seu nascimento, ainda que seja apenas na forma de seu nome próprio.

O discurso ao qual o sujeito se submete instaura a experiência da comunidade, em que trocas e permutas apenas são concebíveis dentro da órbita da linguagem.

A partir de Lacan, a dualidade natureza / cultura dá lugar à concepção ternária - natureza sociedade cultura - sendo esta última, a linguagem, que distingue a sociedade humana das sociedades naturais.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

LÍngua e fala

A língua é necessária para que a fala se torne inteligível e seja pactuada por todos.

A fala, por sua vez, é imprescindível para que a língua se enraíze e se estabeleça como estrutura estruturada.

Eis o fundamento dialético que não nos autoriza a pensar na distinção entre indivíduo e sociedade como entidades autônomas.

Mesmo fundamento que põe em suspenso as categorias de interior e exterior, tão difíceis de serem abandonadas.

A linguagem humana e todas as suas formas de expressão constituem os interesses da linguística.

Não estaria aqui o ponto de convergência entre linguística e psicanálise?

A linguagem é uma manifestação a um só tempo individual e social. Multiforme, ela envolve fenômenos físicos (ondas sonoras), fisiológicos (fonação e audição) e psíquicos (imagens verbais e conceitos).

A fala corresponde ao psíquico, cujo caráter é, em essência, individual. É através dela que particularizamos a língua.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O tesouro dos significantes

A língua é, antes de tudo, uma convenção que expressa o acordo comunal cristalizado em signos, os quais são símbolos da união entre o sentido e a imagem verbal que o indivíduo registra em seu processo de inserção linguística, que é a forma como se realiza a imersão na cultura.

Tanto filósofos quanto linguistas concordam que sem os signos não seria possível distinguir duas idéias de modo claro e constante.

Porque o pensamento, essa massa amorfa em que nada se apresenta delimitado, precisa da matéria fônica para moldar a plasticidade dos significantes e o jogo das diferenças entre eles, marca de toda e qualquer língua.

O significante, de natureza auditiva, se desenvolve no tempo. Representa uma extensão mensurável, como uma linha horizontal, na qual seus elementos se apresentam um após o outro formando um encadeamento chamado de cadeia dos significantes.

O significante não exige vinculação natural com a ideia que expressa. Este é o caráter arbitrário do signo defendido por Saussure.

Mas a liberdade entre símbolo e ideia não acontece no que diz respeito à comunidade que utiliza o significante.

A este fato, de o significante ter natureza impositiva quanto ao uso, Saussure chama de carta forçada.

A língua se situa no tempo e a isto se deve seu caráter de fixidez.

De modo que a solidariedade com o passado põe em xeque a liberdade de escolha.

Vemos aqui a relação intrínseca que existe entre dois fatores antinômicos: a convenção arbitrária, em nome da qual a escolha se faz livre e, o tempo, graças ao qual a escolha se mantém fixada.

O tempo, que assegura a continuidade da língua, tem também o efeito de alterar os signos linguísticos.

Mas em toda possibilidade de alteração domina a persistência do velho.

Daí porque se diz que o princípio de alteração se baseia no princípio de continuidade.

A mixagem desses fatores – alteração e continuidade – produz tal deslocamento da relação entre significado e significante, cujo efeito se reflete no fato de que a língua se transforma sem que os indivíduos possam transformá-la.

Estruturada tal uma sinfonia, cuja realidade independe da maneira como é tocada, a língua se impõe do exterior sem admissão de interferências.

Capturado na malha deste sistema, o indivíduo, em troca, é feito portador do tesouro da língua.

Lócus virtual em que a língua adquire expressão coletiva e completa.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A importância de Lévi-Strauss

A produção de Lévi-Strauss guarda um traço familiar que merece ser reconhecido. Ele provém de uma família constituída de músicos, cuja influencia transparece nitidamente em seu olhar inspirado no modelo das partituras musicais - o gosto pelas sínteses teóricas e pela escrita rigorosa.

A exemplo do que se realiza na música, Lévi-Strauss considerava ser preciso apreender a linguagem da estrutura.

O que é a partitura senão o esqueleto, a estrutura da composição musical?

Extraiu de Karl Marx a ideia de que as realidades manifestas são enganosas e que compete ao estudioso construir modelos para ter acesso aos fundamentos do real como forma de ultrapassar a realidade sensível.

Trazemos aqui a proposição de Marx também para acentuar que a tese estrutural sempre existiu. O método estruturalista já se encontrava em Marx.

A base de formação de Lévi-Strauss se deu na Alemanha. Sob a influência de Franz Boas, percebeu e valorizou a natureza inconsciente dos fenômenos culturais e colocou as leis da linguagem no centro da estrutura inconsciente.

É neste terreno que se situa sua maior inovação, qual seja: transpor o modelo linguístico para o campo da antropologia.

A linguística estrutural foi o modelo de que se serviu e Roman Jakobson, o nome relevante com quem estabeleceu contato. Dessa proximidade, Lévi-Strauss valorizou dois princípios muito importantes: a investigação de invariantes e a preponderância dos fenômenos inconscientes da estrutura.

Com a proibição do incesto, Lévi-Strauss se viu frente ao protótipo da lei - a invariância – que era o que mais perseguia.

Realizou um deslocamento em relação à abordagem tradicional, a qual entendia o fenômeno em termos de interdições morais. Era essa a concepção de Morgan, para quem a proibição do incesto consistia numa proteção da espécie contra os efeitos funestos dos casamentos consanguíneos.

A hipótese de Lévi-Strauss, ao contrário, acentua o caráter de transação presente na proibição dos casamentos consanguíneos, da comunicação que se instaura, para além da mesma tribo, com a aliança do matrimônio.

A proibição do incesto, base da aliança comunal, passou a ser concebida como decisiva no surgimento da ordem social. É neste sentido, inclusive, que se pode dizer que a proibição do incesto consiste na própria cultura.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O estruturalismo na França

 A linguística francesa sobressai pelo seu atraso. Somente em 1956, Greimas publica um artigo em que mostra que a linguística estava sendo valorizada em diferentes domínios: por Merleau-Ponty na filosofia, por Lévi-Strauss na antropologia, por Barthes na literatura e por Lacan na psicanálise.

Era o momento auge do estruturalismo. Mas nada acontecia na lingüística francesa. Por esta razão, Greimas propôs o retorno a Saussure, centrado na semiologia, definida por este como a ciência que estuda a vida dos signos no social.

O estruturalismo surgiu na França como retomada intelectual, cujo veio de impulsão se deu nos anos cinquenta e sessenta.

Movimento que significou uma tomada de posição por parte de intelectuais descontentes com a cultura ocidental, e que estavam em busca de novos modelos para pensar a realidade social.

Intelectuais que desprezavam o engajamento político e almejavam ultrapassar o conhecimento acadêmico dominante.

Naquele momento, o estruturalismo representava o novo que se impunha ao antigo. Mas, a partir do retorno a pensadores que haviam sido abandonados no pós-guerra.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

I Congresso Internacional de Linguística


O I Congresso Internacional de Linguística, realizado em Haia no ano de 1928, teve o objetivo de destacar o ensino de Saussure, o qual percebia a língua como um sistema.

Reuniram-se no congresso os russos Jakobson, Karcevski, Troubetzkoy, e os genebrinos Bally e Sèchehaye.

Foi nesse congresso que Jakobson empregou pela primeira vez o termo estruturalismo.

Como se vê, Moscou e Genebra constituíram o alicerce de sustentação do programa estruturalista.

A proposta de Saussure contemplava, em síntese, os requisitos do paradigma estruturalista: a abordagem descritiva, a prevalência do sistema, a preocupação em explicitar as unidades elementares a partir de procedimentos construídos e a ênfase concedida ao analogismo em detrimento do evolucionismo.

Estas categorias, valorizadas por Saussure, servirão de instrumento ao estruturalismo.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O pai do estruturalismo

Ferdinand de Saussure é considerado o fundador do estruturalismo.

Este movimento deve tudo ao desenvolvimento da lingüística por ele iniciado. Mas não podemos deixar de mencionar que a noção de arbitrário do signo preexistia a Saussure.

Conta-se que Platão formulou o problema da relação entre os nomes e as coisas, apresentando a força de duas versões opositoras: natureza e cultura.

Hermógenes defendeu a ideia de que os nomes atribuídos às coisas são arbitrariamente escolhidos pela cultura, enquanto Crátilos defendeu a proposição de que os nomes são decalques da natureza, concentrando assim a explicação no âmbito natural.

Saussure decifrou o enigma dando razão a Hermógenes.

Os ensinamentos de Saussure foram orais, transmitidos no Curso de Linguistica Geral que ministrou entre 1907-1911.

O Curso foi publicado em 1915 por dois de seus alunos, também professores em Genebra, Charles Bally e Albert Sèchehaye.

No curso, Saussure fundamentou o arbitrário do signo, demonstrando que a língua integra um sistema de valores ordenado por diferenças puras.

A língua é colocada no lado da abstração contra toda forma de empirismo.

A lingüística que Saussure propõe se organiza conforme regras próprias - é um sistema.