Rui mora com o pai. Os dois são muito próximos. É, porém, uma relação quase sem palavras. Não conversam. Falam apenas o essencial. Certa vez, rememora, o pai levou-o à banca de jornal para comprar figurinhas. Ele queria tanto possuí-las, mas nunca tinha pedido, sequer passado pela sua cabeça expressar essa vontade. O pai agiu como um adivinho. Seguem ambos nesse jogo amistoso sem palavras. Conduzem-se um ao outro pela vida, quase melancólicos. Um pai integralmente dedicado; um filho inteiramente endividado com o pai que deposita nele toda a sua esperança. Rui expressa a pressão que essa dívida exerce sobre ele. Sente-se comprometido com o futuro. Ele tem que dar certo. Ele sente que está dando certo. Sua juventude transcorreu sem grandes atropelos, cursou a universidade, conseguiu bom estágio e emprego. Não foi fácil para Rui revelar sua história com o pai. Envergonha-se dele ser um homem humilde, não tem um projeto de vida propriamente, vive entregue à tarefa de bem servir a outros. Um pai incapaz de laçar com audácia seus desejos e de reconhecê-los. Rui deseja viver sua própria vida. Namorar, morar só, ser independente... Como deixar esse pai que vive exclusivamente devotado a ele? Um pai que nunca o abandonou. Um pai socialmente pobre, sem projetos e palavras; um sujeito com poucos recursos, que soube desempenhar da melhor forma sua função de pai. Um pai provedor, que mantém o excesso materno de dedicar-se incondicionalmente ao filho. Alimentando-o, educando-o, presenteando-o. Um pai que não foge da luta e enfrenta os pesados encargos de sua função. Ora, esse pai encarna boa medida da fortaleza do pai simbólico.
Espaço de estímulo à escrita e à troca de idéias entre pessoas interessadas em psicanálise e assuntos conexos.
terça-feira, 20 de julho de 2010
segunda-feira, 12 de julho de 2010
O pai: um rival admirado e invejado
Rui preserva uma imagem muito idealizada da namorada. Amanda é para ele como uma mestra querida. É ela quem o inicia no maravilhoso mundo das idéias.
Ela é vista por ele como uma expositora desenvolta e segura, capaz de solucionar intrincados enigmas.
Ao contrário de Rui, ela é independente, mora sozinha...
Amanda é a mulher perfeita.
O pai dela aparece na fala de Rui como um homem sábio; um pai fascinante que exerce sobre a filha enorme poder de influência; um pai que tem o que dar à Amanda. Um pai que se apresenta ante aos olhos dele como indubitavelmente forte; um pai poderoso.
Rui admira a vida de Amanda, o pai que ela tem. E inveja a vida intelectual e material que aquele pai é capaz de oferecer.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
A desconfiança e o ciúme
Tudo vai bem para Rui, desde que esteja a sós com Amanda. O que o incomoda é o risco de abandono de todo o resto que o encontro deles implica. Essa situação se torna insustentável quando eventualmente saem com amigos. Não raro Rui esboça comportamentos desconcertantes nessas ocasiões. Não sabe como agir. Então, torna-se taciturno e ensimesmado. Intimidado, mantém-se em excessiva reserva. Não participa das conversas com naturalidade. Fica distante, apático, distraído. Não se sente à vontade com ela na frente de outras pessoas. Sente ciúmes incontroláveis. Acha que Amanda está sendo paquerada na sua frente. Queixa-se de não controlar os sentimentos dela. Não sabe quando será abandonado por ela, isto lhe parece ser apenas uma questão de tempo. A qualquer momento Amanda poderá encontrar outro homem por quem se encantará. Tortura-lhe essa certeza – da traição. Quer de novo sua mulher exclusivamente para si. Quando voltam para casa, conversam sobre o que acontece. Invariavelmente Rui se sente arrependido. Ansioso e culpado, ele necessita da compreensão dela. Então pede desculpas, promete se redimir e sofre porque sabe que esse comportamento, que insiste, ameaça a continuidade da relação que tanto preza. Daí, ele a cobre de mimos e de atenção. E, quanto mais solícito se torna, mais se sente submisso e dependente dela. Angustia-se ante a provável e até mesmo inevitável perda de Amanda. Ele precisa de justificativas, nem sempre convincentes, para as dificuldades no relacionamento social e para os seus ciúmes infundados. Amanda não suporta mais as desconfianças de Rui, de sempre imaginar que ela está interessada em outro. E esse outro o acossa. Quando estão em grupo, é ele quem denuncia, com um comportamento inconformado, o par perfeito que eles ensaiam formar, jogando para escanteio a presença ameaçadora do Outro à cumplicidade primitiva que ambos adoram manter.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
A mulher ideal
Rui e Amanda voltaram a namorar recentemente. Ainda se gostam muito. A relação flui com intensidade, expressa nos papos intermináveis que varam a noite e no encontro alquímico da boa interação sexual. A intimidade entre eles é completa quando estão a sós. O que os leva a prescindir da presença de outras pessoas. Eles se bastam, é o que lhes parece. Contudo, Rui estranha sua falta de energia para fazer outras coisas. Reclama que está cada dia mais preguiçoso, improdutivo e que se isola de tudo. Está seduzido pela imagem ilusória dessa relação dual perfeita; cooptado, atraído pela beleza oceânica desse encontro perfeito entre duas metades que se aninham e se fundem. Freud nos lembra: A mãe é o primeiro objeto de amor da criança.
A palavra amor, aqui, se refere ao aspecto mental da pulsão, pois quando a mãe se torna o objeto de amor da criança o trabalho psíquico do recalque já se instalou. Há que se considerar a complexidade do processo em questão no reencontro do objeto. No período anterior à puberdade, o objeto encontrado é quase idêntico ao primeiro objeto de prazer, a mãe. E vincula-se a essa escolha tudo o que se entende sob o nome de complexo de Édipo.
A palavra amor, aqui, se refere ao aspecto mental da pulsão, pois quando a mãe se torna o objeto de amor da criança o trabalho psíquico do recalque já se instalou. Há que se considerar a complexidade do processo em questão no reencontro do objeto. No período anterior à puberdade, o objeto encontrado é quase idêntico ao primeiro objeto de prazer, a mãe. E vincula-se a essa escolha tudo o que se entende sob o nome de complexo de Édipo.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Confiar ou não confiar
Rui – que significa rei – é o nome fictício que usarei ao apresentar fragmentos de construções clínicas, cujo personagem central seja masculino. É também uma homenagem a ‘sua majestade o bebê’, expressão usada por Freud ao falar do narcisismo presente em nossa tenra infância. Afinal, a análise é recheada de momentos em que o sujeito se mira em sua imagem especular. Desde o início Rui trouxe-me a imagem de Édipo: uma criança abandonada que se deseja acolher; um ser em busca de refúgio; um andarilho imerso na ignorância de seu infortúnio que se põe em fuga... do imponderável. Ele fora avisado à noite da entrevista marcada comigo para a manhã do dia seguinte. Chega meio intrigado e se revela surpreso com a consulta. Percebe-se sem chances, insinuando assim sua impossibilidade de escapar, como se estivesse sendo obrigado a realizá-la e não que ela fosse fruto de sua livre escolha ao procurar-me. Não obstante, estava ali diante de mim formulando sua primeira queixa: via-se vítima de um telefonema que o deixara sem escolha. Seu questionamento inicial, em que se revela sua contradição – de se sentir sem escolha, submisso à ordem do Outro, movimento em que esconde seu desejo - retornará muitas outras vezes. Rui fala da sua falta de jeito para iniciar a análise. Não está acostumado a falar, ainda mais sendo ele o assunto, por outro lado expressa sua dificuldade para se comunicar com as pessoas. Por fim, mostra-se curioso sobre como seria falar de si mesmo. Conta-me sobre seu hábito de desenhar num caderno, companheiro inseparável – um objeto transicional - a quem confidencia o que lhe sucede. No caderno compõe um diário de imagens sobre suas impressões e emoções do dia. Mostra-me o caderno. Trouxe-o a mim como uma radiografia das imagens que percorrem seu imaginário. Vejo desenhos, colagens, signos de sua arte particular para evocar experiências, ponte para seu isolamento, refúgio para se evadir do presente. Havia tropeços na sua chegada, errava o ponto em que devia saltar, o que o obrigava a andar mais e a se atrasar. Sua resistência cedeu mais quando pôde expressar a necessidade que sentia de confiar. Rui precisava acreditar em alguém para poder revelar coisas que o afligiam. Aflorava nele a certeza de que precisava de ajuda para enfrentar suas dificuldades. Angustiava-o justo sua impossibilidade de confiar. Qual seria a origem dessa impossibilidade?
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Édipo: símbolo da revelação
Em todo longo percurso da obra freudiana, a figura de Édipo paira como o símbolo de uma grande revelação: do desejo incestuoso da criança. Na imaginação para sempre infantil, somos como o antigo herói Édipo.
A primeira escolha amorosa do homem é, portanto, incestuosa. E essa escolha necessita de severas proibições, por parte da cultura, para que se impeça que ela se realize.
Édipo simboliza o inconsciente que nos aparece travestido de destino. Ao focalizarmos a questão do Édipo sob o ponto de vista do complexo – de Édipo – remetemo-nos à soberania da clínica, a qual incide sobre os romances familiares em todas as suas facetas.
Classicamente, o complexo de Édipo está relacionado à fase fálica da sexualidade infantil: quando a criança experimenta sensações voluptuosas em relação à mãe.
Apaixonada pela mãe, a criança a quer inteiramente para si, colocando-se nesse particular como rival do pai, a quem admira, embora não deixe de sentir sua presença como um obstáculo a seu desejo em relação à mãe.
Reagimos ao sentido secreto da lenda de Édipo, como se tivéssemos reconhecido o complexo de Édipo em nós mesmos, como se fossemos compelidos a recordar os dois desejos – o de eliminar o pai e desposar a mãe – e, ao mesmo tempo, nos horrorizamos com eles.
A responsabilidade sobre esses impulsos pulsionais recalcados reaparece sob a forma de sentimento de culpa.
Que ajuda proporciona a análise no que concerne ao complexo de Édipo?
A análise confirma tudo o que a lenda descreve e mostra que cada um de nós tende a repetir de alguma maneira o drama de Édipo.
Na puberdade, quando as pulsões sexuais fazem suas exigências, os objetos incestuosos familiares são retomados e investidos com a libido.
Nesse período se desenrolam intensos processos emocionais que seguem a direção do complexo de Édipo ou reagem contra ele.
O jovem é então convocado a se desvincular de seus pais. E enquanto essa tarefa não for cumprida ele não pode deixar de ser uma criança.
Para o filho, a tarefa de se tornar emocionalmente independente dos pais implica no desligamento de seus desejos libidinais dirigidos à mãe, para empregá-los na escolha de outro objeto amoroso.
Algumas vezes o jovem não chega a nenhuma solução do conflito edípico, permanecendo subjugado à autoridade do pai e incapaz de transferir sua libido a outro objeto de amor.
Quando se forma um nó no romance familiar, marca essencial do impasse afetivo, consideramos que o complexo de Édipo se cristaliza como o núcleo da neurose propriamente dita.
Quando se forma um nó no romance familiar, marca essencial do impasse afetivo, consideramos que o complexo de Édipo se cristaliza como o núcleo da neurose propriamente dita.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
A lenda de Édipo
Todos nós conhecemos a lenda de Édipo e seus antecedentes que serviram de inspiração a Sófocles. Para abrir este assunto que versará sobre questões clínicas, escolhi relembrar o mito por considerá-lo o romance primordial do destino do homem que a clínica busca re-significar.
Laio, príncipe de Tebas, ainda criança, é exilado na Frigia, corte do rei Pélope, quando Tebas foi tomada pelos tiranos Anfião e Zeto, após a morte de seu pai Lábdaco, rei de Tebas, o qual fora morto por bacantes como ato de vingança à repressão imposta por ele ao tradicional culto a Dionísio.
Durante sua estada na Frigia, Laio enamora-se de Crisipo, filho de Pélope. Para viver seu amor, rapta Crisipo e foge para Tebas, pois pretendia recuperar o trono de seu pai.
Furioso, Pélope persegue-os. Crisipo, temendo a humilhação e a punição do pai, comete suicídio. O rei culpa Laio por ter perdido o filho primogênito e lança sobre ele uma maldição: se tivesse um filho, seria morto pelo próprio e sua descendência sofreria conseqüências trágicas.
Laio continua vivendo em Tebas, conhece Jocasta e se casa com ela. Após a morte dos tiranos Anfião e Zeto, Laio é chamado pelos cidadãos a assumir o trono. Assim consegue reconduzir a dinastia de seu pai ao poder.
Mas temendo a maldição, Laio tenta evitar ter filhos. Quando nasce o primogênito entrega a criança a um criado para que a abandone no Monte Citéron, depois de furar-lhe os pés.
O criado salva o bebê entregando-o a um pastor de ovelhas. Este o conduz a Corinto, onde é criado como filho adotivo pelo rei Pólipo e sua mulher Mérope, sendo batizado com o nome de Édipo, do grego Oidipous, que significa ‘pés inchados’.
Édipo cresce e ouve boatos de que não seria filho de seus pais. Quando atinge a maioridade, deixa Corinto em busca da verdade sobre sua ascendência. Procura Delfos para consultar o oráculo de Apolo. O deus lhe revela, de modo enigmático, que um dia ele mataria seu pai e se casaria com sua mãe.
Ante tal revelação estarrecedora, Édipo resolve ir embora de Corinto e jamais voltar, na vã tentativa de escapar da previsão.
Seguindo o cruso de seu destino, cruza por acaso com Laio, a quem não conhece. Eles brigam e Édipo o mata.
Entronado como rei de Tebas por ter decifrado o enigma da Esfinge, ao descobrir que acabou cometendo ambos os crimes, sem o saber, Édipo pune severamente a si mesmo cegando-se.
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