segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O uso da palavra estrutura na psicanálise

Toda vez que a palavra estrutura aparece no discurso psicanalítico, eu me pergunto se ao utilizá-la o usuário está ciente da carga conceitual, filosófica e histórica que ela contém.

Isto porque observo na minha prática, junto aos grupos que frequento e em diferentes transmissões das quais participo, que a palavra estrutura (e derivativos) integra o vocabulário corrente praticado neste campo.

Falar sobre a estrutura significa admitir o fascínio que esta noção exerceu, a exigência de rigor que imprimiu mudanças substanciais nas ciências humanas, e a força da influência ativa que ainda exerce, apesar das críticas – de um logicismo exacerbado e ou de menosprezo às teses humanistas.

Persiste a impressão de que esta palavra, atualmente muito desgastada, aparece na fala do psicanalista dissociada do discurso que lhe garantiu a identidade conceitual necessária para seu reconhecimento.

Como se a estrutura aparecesse agora nas falas envergonhada de seu parentesco com o movimento estruturalista.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A experiência analítica e sua direção

Na configuração do campo analítico, a transferência é o instrumento mais precioso da técnica que o psicanalista utiliza.

A existência etérea da transferência torna seu manejo particular. É essa qualidade impalpável e não generalizável que singulariza o trabalho do psicanalista: o define e o diferencia.

Define, porque situa e circunscreve o campo da análise, e particulariza a intervenção como irrepetível; diferencia, porque conota a abordagem com uma qualidade precisa, diferente dos demais profissionais.

Como uma bússola, a transferência não revela tudo, mas aponta o essencial para que certa direção seja perseguida no percurso da análise.

O temo transferência, numa acepção ampla, comporta a idéia de transporte, deslocamento, substituição. Em psicanálise, inferimos a existência de uma lógica inclusiva na própria afirmação que define o que é uma análise: não existe experiência analítica distinta da experiência transferencial.

Freud e seus seguidores fizeram uso do termo para nomear o processo no qual os desejos inconscientes referentes a objetos passam a se repetir no espaço analítico, sendo o analista colocado na posição desses objetos.

Lacan reformulou essa noção clássica e posicionou a transferência na relação entre o eu e o Outro. A transferência é aquilo que estrutura a relação ao Outro que é o analista. Todos os pensamentos que orbitam essa relação se revestem de um signo particular.

Freud afirma que o manejo da transferência é a dificuldade mais séria que o psicanalista enfrenta. Ele coloca em questão a autenticidade do amor na transferência. A exigência de amor aparece no trabalho analítico como expressão da resistência.

Propõe, como princípio, que esse anseio do paciente sirva para conduzi-lo a trabalhar analiticamente e a realizar mudanças, colocando o amor transferencial a serviço do trabalho analítico.

O amor atualiza antigas características, reedita protótipos infantis. O amor transferencial não foge a esse padrão. Ao contrário, exibe com intensidade ainda maior esse tipo de dependência.

Lacan amplia o debate: o desejo do analista é aquilo que revela a verdade do amor transferencial.
A transferência é tecida com os mesmos fios que tecem o amor. O amor transferencial é um artifício; um objeto que reflete outro.

A transferência é compreendida por Lacan como um engano. O analista ocupa o lugar do sujeito suposto saber, ao qual se atribui, como efeito da transferência, saber absoluto.

O que está em jogo aqui é a relação entre saber e amor.

O analisando transfere ao analista o seu saber. Contudo, a operação de transferência só se realiza no âmbito de uma demanda de amor.

Para Lacan, a transferência encena a própria realidade inconsciente.

Ele radicaliza essa idéia, ao dizer que a presença do analista é uma manifestação do inconsciente.

Seguindo essa formulação, somos convidados a ter acesso ao movimento do sujeito – o abrir e fechar, o contrair e expandir – que constitui a pulsação temporal desse movimento.

A presença do analista sustenta o conflito. E sua intervenção promove a manutenção do drama inicial – sua repetição.

A transferência permite o acesso à indeterminação do sujeito, atingindo o ponto primário do inconsciente.

Freud nos indica: transferência é resistência. Se nos fixarmos diante desse paradoxo - via de acesso e também ponto onde se interrompe a comunicação - apreendemos a natureza ambígua da função da transferência.

O analista acredita na força do conflito – onde há recalque, há algo que impulsiona – essa mola, quanto tocada, repete o ir e vir, o movimento essencial do conflito que se atualiza na clínica.

Ao acompanhar a trilha aberta no território beligerante, nos deparamos com o movimento pulsional, motor da atividade psíquica, que nomeamos como pulsão.

A pulsão carrega consigo um enigma. Ela marca a falta e a fragilidade do humano.

Marca a busca errante do homem e nos revela sua natureza vulnerável.

A pulsão contorna o vazio e em torno dele borda sua linha. Daí a variação de seu objeto: qualquer objeto serve; nenhum objeto serve.

Na análise, a transferência funciona como a antena que permite à pulsão emitir seus sinais, expressar sua potência. Posicionados no lugar que a transferência nos confere, podemos acompanhar a mobilidade constante da pulsão, sua flagrante inquietude.

Esta Postagem divulga a introdução de um trabalho, no qual foram apresentados e analisados quatro fragmentos clínicos, que não foram abordados aqui por motivos óbvios referentes ao sigilo clínico.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A magia da produção analítica

Rui estava dominado por uma sensação de atraso. Tinha a urgente necessidade de atualizar a experiência. Como era muito crítico, por vezes se atormentava com o sentimento de que iniciara tardiamente sua análise, assim como tudo o mais, pois demorava muito tempo para se decidir a fazer algo, a assumir um projeto, qualquer que fosse ele.

Sabia que tendia a retardar a conquista das coisas que desejava.

Temia ser surpreendido por um amigo que apresentasse repentinamente uma mudança de rumo; alguém que tivesse um projeto não revelado, o qual seria exposto apenas no momento de ser posto em prática.

Rui se lembrou de uma situação: um amigo muito próximo um dia lhe disse que ia viajar para fora do país, ia estudar no exterior. Quando o amigo lhe revelou a viagem, tudo já estava arranjado. Vinha se preparando para estudar e morar fora do país e nada lhe dissera. Rui não suspeitara que seu amigo tivesse planejando algo, que ele tivesse um plano em plena ação.

E se demorava a enumerar quantas coisas foram arranjadas com o objetivo de concretizar tal projeto, como a decisão de estudar no exterior, a pesquisa sobre lugares, professores, orientadores, a busca e a conquista da bolsa de estudos. Rui se perdia em detalhes, remoendo a deslealdade e a perda do amigo.

A traição se instalara como tema recorrente na fala dele.

Era como se ao redor as pessoas tivessem elaborando projetos às escondidas. Pessoas que agiam como se nada tivesse acontecendo.

Que coisas Rui projetava e amadurecia secretamente, longe da revelação analítica?

Por outro lado, que cartas eu poderia ter sob a manga para surpreendê-lo de uma hora para a outra tão negativamente?

Rondávamos ainda a questão da confiança? Ah, essa taça de cristal...

Creio que estávamos mais adiante. Já fertilizado, o solo transferencial em que delicadamente pisávamos guardava vasta extensão indizível, onde algo secretamente era cultivado, produzido, elaborado, inventado.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Um lugar para chamar de seu

Rui terminou o curso superior. Surpreendeu-se com o fato de que conseguira se inserir rapidamente no mercado de trabalho. Achou que nem tivera tempo para refletir se deveria aceitar ou não a proposta que lhe fora oferecida.

Como não tinha experiência no ramo que a empresa lhe oferecia, decidiu aceitar, deixando para trás o campo onde estagiara durante boa parte do curso.

Não sabia dizer se esta escolha havia sido acertada. Deixou um trabalho que apreciava e conhecia muito bem por outro desconhecido. Temia ser um equívoco a opção que assumira. Queria uma garantia para sua escolha. Não podia perder mais tempo ainda, caso ela não fosse a mais acertada.

Como fosse possível atestar-se e garantir-se o desconhecido, o futuro, o improvável...

Era-lhe inconcebível a idéia de voltar atrás e recomeçar tudo novamente. O trabalho atual, que aceitara, não lhe dava tanto prazer quanto o anterior. Queixava-se agora da falta de autoria que ele implicava. Gostaria de fazer alguma coisa em que sua obra tivesse evidência.

Daí instalou-se o conflito: a sorte que teve de arrumar um emprego pelo qual não precisara lutar e o prazer incompleto que ele proporcionava.

Vez por outra o trabalho aparecia nas sessões com essa marca ambígua: algo que conquistou sem empreender grande esforço, daí se considerar uma pessoa de sorte, mas que não cativava, pois o obrigava a se dedicar a algo que não sabia se queria.

Sem dúvida tratava-se de alguém que apreciava os desafios. Como o que é fácil não gera prazer, o sujeito mergulha na rotina, na insatisfação da tarefa, e perde as pegadas de uma possível obra, de uma possível originalidade, de uma possível autoria.

Buscou então se concentrar num objetivo: aprender com a experiência de trabalho. Mas essa tática com o tempo não se mostrou produtiva; não deu grandes resultados.

Sua reclamação incidia agora no fato de que precisava se esforçar para assimilar algo que não sabia se desejava dar continuidade.

Oscilava entre ficar ou sair do trabalho. Ficar ou sair do trabalho de análise? Começava a se esboçar a expectativa de produzir um projeto para si mesmo. Espantava-se, no entanto, com a falta de um projeto propriamente.

Era preciso antes desbravar um lugar. Início de um reconhecimento sobre a falta de lugar. Um trabalho de construção começava a se insinuar. Como toda boa construção, antes seria preciso cavar o solo para que uma fundação pudesse se sustentar.

Um lugar subjetivo começava a ser delineado. Se havia a vontade genuina de uma autoria, é porque havia a queixa quanto ao texto que faltava. Era preciso ser produzido. Pois se o autor concebe e escreve o texto;  é o texto que constrói o autor.

A cada sessão um texto é escrito. Para a riqueza dos incontáveis textos a serem produzidos, vale deixar fluir as palavras; dar liberdade ao ritmo que se imprime a elas a cada momento. No compasso da livre associação, é a escrita subjetiva que se refina a cada sessão.

Dentro em breve Rui poderia fincar a bandeira no território que ele queria inteiramente seu.

terça-feira, 20 de julho de 2010

O pai

Rui mora com o pai. Os dois são muito próximos. É, porém, uma relação quase sem palavras. Não conversam. Falam apenas o essencial.
Certa vez, rememora, o pai levou-o à banca de jornal para comprar figurinhas. Ele queria tanto possuí-las, mas nunca tinha pedido, sequer passado pela sua cabeça expressar essa vontade. O pai agiu como um adivinho.
Seguem ambos nesse jogo amistoso sem palavras. Conduzem-se um ao outro pela vida, quase melancólicos. Um pai integralmente dedicado; um filho inteiramente endividado com o pai que deposita nele toda a sua esperança.
Rui expressa a pressão que essa dívida exerce sobre ele. Sente-se comprometido com o futuro. Ele tem que dar certo. Ele sente que está dando certo. Sua juventude transcorreu sem grandes atropelos, cursou a universidade, conseguiu bom estágio e emprego.
Não foi fácil para Rui revelar sua história com o pai. Envergonha-se dele ser um homem humilde, não tem um projeto de vida propriamente, vive entregue à tarefa de bem servir a outros.
Um pai incapaz de laçar com audácia seus desejos e de reconhecê-los.
Rui deseja viver sua própria vida. Namorar, morar só, ser independente...
Como deixar esse pai que vive exclusivamente devotado a ele? Um pai que nunca o abandonou.
Um pai socialmente pobre, sem projetos e palavras; um sujeito com poucos recursos, que soube desempenhar da melhor forma sua função de pai. Um pai provedor, que mantém o excesso materno de dedicar-se incondicionalmente ao filho. Alimentando-o, educando-o, presenteando-o.
Um pai que não foge da luta e enfrenta os pesados encargos de sua função.
Ora, esse pai encarna boa medida da fortaleza do pai simbólico.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O pai: um rival admirado e invejado

Rui preserva uma imagem muito idealizada da namorada. Amanda é para ele como uma mestra querida. É ela quem o inicia no maravilhoso mundo das idéias.
Ela é vista por ele como uma expositora desenvolta e segura, capaz de solucionar intrincados enigmas.
Ao contrário de Rui, ela é independente, mora sozinha...
Amanda é a mulher perfeita.
O pai dela aparece na fala de Rui como um homem sábio; um pai fascinante que exerce sobre a filha enorme poder de influência; um pai que tem o que dar à Amanda.
Um pai que se apresenta ante aos olhos dele como indubitavelmente forte; um pai poderoso.
Rui admira a vida de Amanda, o pai que ela tem.
E inveja a vida intelectual e material que aquele pai é capaz de oferecer.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A desconfiança e o ciúme

Tudo vai bem para Rui, desde que esteja a sós com Amanda. O que o incomoda é o risco de abandono de todo o resto que o encontro deles implica. Essa situação se torna insustentável quando eventualmente saem com amigos.
Não raro Rui esboça comportamentos desconcertantes nessas ocasiões. Não sabe como agir. Então, torna-se taciturno e ensimesmado.
Intimidado, mantém-se em excessiva reserva. Não participa das conversas com naturalidade. Fica distante, apático, distraído.
Não se sente à vontade com ela na frente de outras pessoas. Sente ciúmes incontroláveis. Acha que Amanda está sendo paquerada na sua frente. Queixa-se de não controlar os sentimentos dela.
Não sabe quando será abandonado por ela, isto lhe parece ser apenas uma questão de tempo. A qualquer momento Amanda poderá encontrar outro homem por quem se encantará. Tortura-lhe essa certeza – da traição. Quer de novo sua mulher exclusivamente para si.
Quando voltam para casa, conversam sobre o que acontece. Invariavelmente Rui se sente arrependido. Ansioso e culpado, ele necessita da compreensão dela.
Então pede desculpas, promete se redimir e sofre porque sabe que esse comportamento, que insiste, ameaça a continuidade da relação que tanto preza.
Daí, ele a cobre de mimos e de atenção. E, quanto mais solícito se torna, mais se sente submisso e dependente dela.
Angustia-se ante a provável e até mesmo inevitável perda de Amanda. Ele precisa de justificativas, nem sempre convincentes, para as dificuldades no relacionamento social e para os seus ciúmes infundados.
Amanda não suporta mais as desconfianças de Rui, de sempre imaginar que ela está interessada em outro. E esse outro o acossa.
Quando estão em grupo, é ele quem denuncia, com um comportamento inconformado, o par perfeito que eles ensaiam formar, jogando para escanteio a presença ameaçadora do Outro à cumplicidade primitiva que ambos adoram manter.