sábado, 15 de março de 2008

Filosofando II - Sobre a dialética

Hegel (1770-1831) manteve os argumentos cristãos a serviço de uma filosofia que se pretendia acima da religião: a verdadeira religião é interioridade. Seu pensamento sofreu influência da concepção de Espinoza, para quem a substância é o que existe em si e é concebida por si. Essa substância infinita é Deus – Deus sive natura. Deus é o mundo, o mundo é Deus. Nele reside a unidade e a totalidade. Natura naturante - Deus unidade; natura naturata - Deus totalidade. Substância perfeita que configura a união dos contrários: espírito e matéria. Hegel substitui essa lógica antiga pela dialética, que é dinâmica, que descobre contradições para conciliá-las e superá-las. Se a toda tese se opõe uma antítese, a contradição entre a tese e a antítese é suprimida por uma síntese, que é o devir.

A lógica de Hegel é metafísica, é a ciência das realidades compreendida pelo pensamento que expressa a essência das coisas. O ser é abstração, indeterminação e nada. Do embate entre ser e nada surge a síntese. A verdade do ser e do não ser se encontra na unidade de ambos, que é o chegar a ser, o devir.

Hegel resgata os ensinamentos de Heráclito (544-484 a.C.), para quem o fogo é o princípio de todas as coisas. É um fogo vivo, força ativa e móvel. Energia fundamental que anima e ordena o eterno devir. O movimento tem uma racionalidade dada pelo logos, o fogo universal. Esse logos, que dirige tudo, é uma norma, uma lei inerente à natureza de tudo. Em Heráclito, todas as realidades se opõem, unem-se e se harmonizam. Os seres são marcados por uma dualidade interna, neles encontram-se a identidade e a alteridade. Cada ser se determina na relação com o outro e na relação consigo mesmo.

A razão encontra sua singularidade na força do negativo. São dois lados em oposição, e nessa relação dos contrários um é a negação do outro, entretanto constituem uma unidade. Mas o movimento da realidade não é absurdo nem irracional. Há, intrínseca, uma lógica triádica: ser (uma afirmação), não ser (uma negação) e síntese (a negação da negação) diferenciando-se esta qualitativamente tanto da afirmação quanto da negação. Elementos sempre presentes no devir, processo da permanente mobilidade, da transformação. Germe do móvel, que fundamenta uma razão/desrazão, que absorve na sua interioridade a luta da contradição. Lógica de que se apropria Karl Marx. Isolando-a da essência metafísica, e dotando-a de uma materialidade histórica, Marx resgata na dialética sua prodigiosa potencialidade para pensar a realidade social e histórica.

Um comentário:

juliana disse...

"pessoas genuinamente interessadas em psicanálise"? bom, neste caso, não deveria estar postando aqui. rs.

mas como sua filha fez um grande papel como publicitária, repassando o blog para seus demais conhecidos, acabei me tornando uma "pessoa não genuinamente interessada, mas disposta a ler sobre psicanálise". rs.

ótimos textos, excelente leitura.
continue assim (com estrelinha lá no alto e tudo, rs.)

um beijo,
juliana