segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O Cofre

Era um velho cofre, verde e desbotado, que apesar de não ser pequeno, não chamava a atenção para si. Talvez porque a função que lhe coube desempenhar nos últimos tempos não fosse assim tão nobre.

Será que lhe cabia alguma função?

Devia ter sido útil um dia. Mas esse valor fora completamente abandonado. O destino dos cofres é restar recluso, obscuro, longe dos olhares indiscretos ou invasivos. Nunca diante de todos.

Mas este cofre de que estamos tratando, ele tivera outro fim. Ganhou um lugar na cozinha. Apesar de sua evidente aparência de cofre, ele restava, ali, promiscuamente diante de todos. Não havia outro lugar para ele, era o que se dizia. O primeiro desvio que se podia então atribuir a ele era em relação ao lugar natural que cabe aos cofres ocupar.

Ele se postava como um armário comum, embora sequer fosse usado como móvel para guardar quinquilharias, abaixo do pequeno fogão, separado deste por uma pedra que, como uma barra, se antepunha entre ele e a chama que às vezes emanava do velho fogão.

A cozinha onde restava inútil o cofre tinha um justo espaço que dava para acolher uma única pessoa. E como esse alguém se sentia bem recebido! Senhor absoluto daquela intimidade materna. Ela ficava lá disponível até que um necessitado lhe procurasse para suprir carências de última hora, caso precisasse de um breve afago, como um copinho de água que sacia a sede. Quando um grupinho sorrateiro bandeava para lá atraído pelo cheiro familiar do cafezinho, era no cantinho exterior a ela que se aninhava, porque ela não podia acolher a todos a um só tempo.

Tudo na cozinha evocava outros tempos. Restavam sobre sua bancada os inestimáveis acessórios que aqueciam as discussões: o bule amassado, o coador de pano enegrecido, as pequeninas xícaras, os copos de geléia e o filtro de barro. Heranças do tempo em que os anciãos ainda se iniciavam na arte de narrar histórias. Pois era nesse pequenino cantinho do café, em meio aos cochichos, que fora colocado o cofre.

Desfigurado pelo desvio que esse lugar lhe impunha, prezava por sua dignidade de cofre mantendo-se mudo e fechado. Qual seria a função de um cofre senão guardar, em segredo, o que se espera preservar, sustentando numa austera ausência, as moedas, as jóias valiosas, os objetos e os documentos mais cobiçados?

O que aquele cofre preservava ninguém mais sabia, nem mesmo Acidália, a ama índia, que cuidava dos bens que os narradores acumularam ao longo do tempo. Envelhecendo junto à velha ama que nele mexia, o cofre trancou-se vingativamente em seu segredo. Como que adquirira autonomia, e fizera para si outro segredo que só a ele pertencia. Sua existência muda quedava invisível, e sua presença apagada era cada vez mais risível.

Como se podia creditar valor a um cofre de cozinha?

Ele permanecia presente ausente em sua quase inexistência, bem abaixo do nariz de todos.

Um comentário:

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